
Entrevista com Emanuelle Baldini, spalla da OSESP: música, orquestra e educação musical
Nessa entrevista tivemos a honra de poder conversar com o spalla da maior orquestra da América Latina, a OSESP.
Conseguimos conversar um pouco sobre música, orquestra e principalmente educação musical. Essa entrevista está gravada e disponível em nosso canal do YouTube!
Logo no início, Thiago Rosa abre com uma pergunta direta, que conduz toda a conversa: quem é Emanuelle Baldini? A partir daí, o entrevistado se apresenta de forma clara e ao mesmo tempo humana — não apenas como violinista, mas como alguém que também enxerga a música como missão e responsabilidade.
Quem é Emanuelle Baldini?
Thiago Rosa: “Eu queria que você se apresentasse. Quem é Emanuelle Baldini?”
Baldini se descreve como violinista e regente italiano, mas deixa claro que sua vida no Brasil começou de forma decisiva em 2005, quando veio a convite da OSESP para assumir o papel de spalla. Ele conta que esteve aqui algumas vezes antes (2003 e 2004) e, a partir de março de 2005, tornou-se titular.
Além da atuação na orquestra, Baldini fala sobre suas atividades paralelas: aulas, música de câmara e conteúdos didáticos, que ele mesmo descreve de forma simples — sem ambição de fama, mas com senso de dever.
Um dos trechos mais fortes da introdução é quando ele afirma que, por trabalhar “na melhor orquestra da América Latina”, sente que precisa devolver ao país um pouco do que recebeu, especialmente para os jovens. E reforça um ponto importante: faz questão de que esse conteúdo seja gratuito.
A origem musical e o “porquê” do violino
Quando Hesley entra no assunto da família, Baldini explica que não vem exatamente de uma família de violinistas, mas de músicos: pais pianistas, com atuação acadêmica (piano principal no conservatório e teoria/solfejo).
Ele também menciona seus dois irmãos, um arquiteto e outro pianista que seguiu mais para a área musicológica.
E então vem uma pergunta que muitos estudantes se fazem: por que o violino?
Baldini conta que tocava piano e, ainda criança, improvisava no instrumento sem sequer ler música. Mas tudo mudou quando assistiu na televisão ao Concerto de Tchaikovski com Uto Ughi.
Ficou encantado, pediu um violino e, no Natal seguinte, ganhou um instrumento pequeno (um oitavo). E como ele mesmo resume: “Não parei mais.”
“Por que sair da Europa e vir para o Brasil?”
Esse é um dos momentos mais interessantes da conversa, porque Thiago contextualiza uma dúvida comum: o que levaria um músico europeu a vir para o Brasil, quando tantos brasileiros querem fazer o caminho inverso?
Baldini responde ampliando ainda mais o contraste: ele tinha trabalho vitalício como spalla na orquestra da cidade natal, convites frequentes para atuar em Milão, além de uma vida totalmente estruturada (inclusive apartamento perto do teatro e da família).
Ou seja: a decisão aconteceu “no momento menos esperado possível”.
O primeiro convite veio de John Neschling, para duas semanas em 2003. Baldini diz que aceitou sem intenção alguma de morar aqui — era apenas uma experiência, como outras que já fazia.
Mas ao chegar, algo mudou: ele entrou na sala, ouviu o som da orquestra e começou a conviver com músicos jovens de 16 nacionalidades diferentes, algo muito diferente da experiência anterior, onde quase todos eram italianos.
Ele descreve esse impacto de forma simples e forte: “Acendeu uma chama em mim.”
A paixão aumentou com os convites seguintes e, principalmente, com uma turnê longa em 2004 pelo Brasil (Manaus, Belém e capitais do Norte e Nordeste).
Ali, segundo ele, fechou-se “o elo que faltava”: além da paixão pela orquestra e pela estrutura da instituição, veio também o amor pelo país.
Desde então, Baldini afirma que ficou e nunca se arrependeu, mesmo com crises e dificuldades ao longo de 19 anos.
Curadoria e contexto: a HPG Musical e a educação do músico
A HPG Musical, especializada em instrumentos de cordas friccionadas, acompanha de perto os desafios reais de quem estuda música no Brasil — especialmente a falta de acesso, a distância geográfica e a dificuldade de encontrar orientação confiável em muitas regiões.
Por isso, além da seleção de instrumentos e acessórios, a HPG valoriza conteúdos e iniciativas que contribuam para formação, repertório e educação musical, ajudando estudantes e profissionais a evoluírem com mais clareza e segurança.
Educação musical no Brasil: desafios reais

Quando o assunto vira educação musical, Baldini traz uma leitura ampla, sem simplificações. Ele lista fatores (sem afirmar que é uma ordem de importância), começando pela desigualdade e pela falta de investimento em cultura.
Um exemplo que ele usa para ilustrar é Fortaleza: mesmo sendo uma cidade grande, ele cita que não há orquestra sinfônica profissional, e menciona o caso da Orquestra Eleazar de Carvalho, que teve problemas com pagamentos, levando músicos a saírem da cidade. Ele conclui que, se não há referência profissional, o jovem naturalmente se pergunta: “Vai estudar pra quê?”
Depois, Baldini aponta a questão das distâncias geográficas, onde a internet pode ser determinante, especialmente em regiões remotas. E também fala sobre a falta de coordenação nacional: projetos muitas vezes nascem por iniciativa individual e acabam quando o idealizador sai, muda ou falece, gerando a sensação de continuidade quebrada.
Por que ele faz vídeos didáticos e por que isso importa
Baldini explica que o canal começou como uma espécie de “backup público”, para reunir vídeos de concertos e registros que ele considerava importantes.
Mas os conteúdos didáticos surgiram por outro motivo: em viagens pelo Brasil, ele conhecia muitos jovens com fome de aprender, e sentia que voltava sem conseguir ajudar.
Então ele decidiu gravar vídeos espontâneos, simples, muitas vezes sem estrutura formal, mas com objetivo claro: comunicar e orientar jovens, sem pedir nada em troca.
Thiago comenta que usa esses vídeos para economizar tempo de aula e reforça a ideia de que, quanto mais conteúdo sério houver, mais fácil fica para o estudante distinguir qualidade e evitar falsos profissionais.
Baldini concorda e diz que esse é um argumento sério: se músicos realmente competentes criassem conteúdo, seria muito mais fácil reconhecer a diferença entre professores sérios e “picaretas”.
Aulas online: limites e benefícios
Baldini fala das limitações (especialmente som e equipamento), mas surpreende ao afirmar que, para ele, os benefícios são maiores que as limitações.
Ele entende que a internet é uma ferramenta valiosa num país enorme, com regiões sem acesso a professores e instituições.
Ele comenta que deu mais aulas online na pandemia por ter mais tempo, mas que manteve um compromisso consistente: quando viaja para tocar, reger ou solar, quase sempre tenta também fazer masterclasses, e sempre gratuitas.
Caminho para se tornar profissional: guia, etapas e visão ampla
Quando Thiago puxa o tema da carreira, Baldini oferece um conjunto de ideias que vai além do “estude muito”.
Ele destaca:
- A importância de uma boa guia (um bom professor), mesmo defendendo autonomia do aluno.
- A necessidade de não se seduzir apenas por grandes sonhos, mas trabalhar com pequenas etapas, aceitando derrotas e vitórias com maturidade (ele cita o poema “If”, de Kipling).
- Um ponto artístico essencial: não reduzir a vida ao violino. Baldini reforça que o músico precisa nutrir a mente, ampliar referências, entender o diálogo entre artes e conhecer repertório além do que é “instrumento-protagonista”.
- E por fim, um aspecto do mundo atual: saber se apresentar, propor, dialogar, buscar oportunidades, criar conexões. Ele conta que, ainda jovem, escreveu para grandes nomes como Claudio Abbado e Isaac Stern, e que Abbado chegou a ouvi-lo e escrever uma carta decisiva para sua primeira grande oportunidade como spalla.
A síntese dele é direta: ser bom é condição mínima; depois é preciso entender que há muitos bons e que você precisa se mostrar.
Instrumento e arco: quando o upgrade realmente faz sentido
No final, a conversa entra num tema muito prático: até que ponto instrumento e arco determinam o sucesso?
Baldini traz um ponto central: um instrumento melhor não torna o violinista melhor automaticamente. O que acontece é que um violinista que trabalha sério começa a sentir as limitações do instrumento e, naturalmente, busca um upgrade.
Ele alerta que pode ser contraproducente um estudante pouco avançado ter um instrumento “super”, porque isso pode criar uma ilusão de nível. Para ele, o ideal é ter um instrumento compatível com o estágio do músico, evoluindo aos poucos.
Ele também comenta sua primeira experiência com um Stradivarius (poucas horas antes de um recital), usando uma analogia clara: como receber uma Ferrari por 10 minutos — você sente o potencial, mas não sabe usar tudo.
E, ao falar de luteria brasileira, ele elogia os jovens luthiers, destacando que muitos têm noção do mercado brasileiro e não cobram valores impraticáveis. Ele critica a busca por instrumentos antigos ruins apenas pelo “glamour” do antigo e afirma que, com valores como 10–15 mil reais, normalmente é melhor investir em um bom instrumento moderno de luthier brasileiro.
Encerramento e o livro “contra método”
A entrevista termina com um gancho: Baldini revela que está preparando um livro baseado em conversas, não um método tradicional. Ele descreve como um “quase contra método”, defendendo criatividade e autonomia no estudo, em vez de caminhos engessados.
A previsão é para final de abril, e Thiago encerra agradecendo o tempo e avisando que o link do livro será fixado quando estiver disponível.
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