Alfio Botecchia e as raízes da HPG Musical

ALFIO GERES I FUNDADOR HPG MUSICAL

De um “salão 3×5” ao respeito de profissionais, luthiers e clientes no Brasil inteiro

A história por trás de uma loja especializada quase sempre começa longe das vitrines. No caso da HPG Musical, começa com barro amassado com o pé, tijolo assentado em família e um tipo de confiança comercial que hoje parece impossível: comprar sem boleto, sem fatura e pagar “de boca”, porque o nome valia mais que qualquer papel.

Este artigo reúne, de forma fiel ao relato, os principais momentos dessa trajetória: a casa construída pelos pais do Alfio, o início em um pequeno espaço no Tatuapé, a fase de órgãos eletrônicos e sopros, a transição para um negócio mais escalável (mesmo antes da internet) e o processo de segmentação que levou a HPG ao universo das cordas friccionadas — com uma base que nunca mudou: atender bem, não deixar faltar produto e construir relacionamento de longo prazo.

Veja vídeo completo da entrevista:


A casa que virou loja: barro, tijolo e uma fundação literal

Antes de existir “loja”, existiu casa. E antes de existir casa pronta, existiu obra feita com as próprias mãos.

Alfio descreve a construção como uma memória física: a mãe cavando o chão, o buraco redondo sendo aberto, a terra virando “fatias” arrancadas com cavadeira, a lata de água e o barro sendo preparado ali mesmo.

Ele, ainda garoto — por volta de 12 ou 13 anos — amassava o barro com o pé, enchia a lata e entregava para o pai, que assentava os tijolos.

Um pedreiro foi chamado para conferir o serviço. A resposta ficou marcada: estava “tudo ótimo” e o trabalho estava “melhor do que o dele”, com recomendação técnica de reforço a cada cinco fiadas com uma fiada de arame.

Décadas depois, o que impressiona no relato não é só a lembrança: é o resultado. A casa segue sem rachaduras, sem sinais de desgaste estrutural relevante. E hoje, esse mesmo espaço abriga parte importante da operação.

Essa imagem é forte por um motivo simples: a história da HPG não começa em “abertura de empresa”. Começa em fundação real, construída com esforço familiar.


O aprendizado no comércio: 20 anos de prática e um mercado que era “dividido em poucas lojas”

Alfio entra no ramo em 1981, na Ola Music Center, e fica ali por cerca de 20 anos. Nesse período, ele acompanha mudanças tecnológicas e de consumo que ajudam a explicar por que a HPG nasceu com um DNA tão comercial:

  • fase do harmônio (instrumento com fole e pedal)
  • órgãos de válvula (ex.: Diatron)
  • transição para transistor (Novatron)
  • avanço para circuitos integrados (Gambit)

É um retrato do varejo musical de outra era. Ele menciona volumes que hoje soam quase irreais: a loja chegava a vender mais de 200 órgãos por mês. E também fala do contexto competitivo: naquela época, a “fatia do bolo” era grande e se dividia entre poucas lojas fortes em São Paulo — nomes tradicionais como Manon, Bevilacqua e Laymar.

O contraste com hoje aparece de forma direta: antes, eram cinco ou seis disputando a mesma clientela; agora, a demanda está fragmentada em “milhões de pessoas”, com muito mais oferta e canais.


Estoque, crédito e confiança: comprar “no fio do bigode” e pagar antecipado

O que sustenta crescimento em varejo não é só vender. É conseguir comprar, ter estoque e manter giro sem quebrar no caminho.

Aqui entra um ponto central do relato: crédito e reputação.

Alfio repete algumas ideias que explicam por que fornecedores ajudaram quando a operação era pequena:

  • ele comprava à vista e às vezes pagava antecipado
  • nunca ficou devendo “para ninguém”
  • preservava o nome da empresa onde trabalhava e também o próprio nome
  • tinha relacionamento direto com donos de indústrias do setor

Um exemplo é simbólico: na época da Gambit, ele chegava a buscar dinheiro no banco, escondia no caminhão e retirava 30, 40 órgãos de uma vez, em dias de “vale” na fábrica.

Mais tarde, já na história do próprio negócio, ele descreve uma forma de compra que praticamente desapareceu: a indústria enviava 20, 30, 40, 50 órgãos e o cobrador dizia “entrego, o dia que puder, você paga”. Sem boleto. Sem fatura. Só confiança.

Essa parte do relato ajuda a entender um ponto que muita gente que vê a loja “pronta” não enxerga: construir reputação é um ativo. E, no começo, foi um dos ativos mais importantes.


O início no Tatuapé: o “salão 3×5” e a abertura em 14 de novembro de 2001

ALFIO GERES I FUNDADOR HPG MUSICAL

A loja não começou na casa principal. Começou do lado, em um espaço mínimo: um “salãozinho” de 3 por 5. Alfio e Hesley abrem a operação em 14 de novembro de 2001.

O começo é descrito como sacrifício real: capital curto, necessidade de reinvestir tudo, crescer com cuidado. E aparece um elemento recorrente em negócios familiares: o filho Hesley trabalhou por 8 meses sem receber, para manter a operação viva enquanto o giro ainda era pequeno.

Também aparece um comportamento típico de quem entende varejo: não deixar faltar produto. Alfio conta que, em certos períodos, comprava de concorrentes (outras lojas) para revender mais caro, porque preferia manter estoque e atender a clientela do que “perder venda por falta”.

A lógica era simples: atendimento e disponibilidade constroem confiança. E confiança vira recorrência.


Uma operação “escalável” antes da internet: representantes, mala direta e vendas para o Brasil todo

Um ponto muito importante do seu texto é que a escalabilidade não começou com e-commerce. Ela começou com rede e relacionamento.

Mesmo com loja pequena, existiam representantes pelo Brasil: professores, maestros, organistas — gente com influência local. Havia também mala direta, listas enviadas principalmente para igrejas (um canal extremamente relevante naquela época).

Sem internet, o telefone tinha peso: Alfio descreve atender pedido à noite, já deitado, com contatos de diferentes estados.

Ou seja: já havia distribuição, já havia canal indireto, já havia logística, já havia venda fora do “bairro”. Isso ajuda a explicar como uma loja de rua residencial conseguia vender acima do que seu tamanho sugeria.


Da casa para o trabalho: a loja ocupando o espaço familiar e a adaptação constante

Com o crescimento, a operação “invade” a casa — e o texto traz detalhes muito humanos dessa transição:

  • cliente tocava campainha na portinha e alguém saía do escritório para atender
  • se o cliente precisava de banheiro, entrava na casa
  • espaços da casa foram virando escritório, estoque, sala de embalagem
  • cômodos com história (cozinha, copa, quarto) se transformaram em áreas de operação

Esse é o tipo de detalhe que torna o relato valioso: ele mostra que o crescimento foi por adaptação, etapa por etapa, sem glamour.

E o próprio Alfio verbaliza essa mentalidade: começar pequeno, ir ajustando e, quando o espaço não comporta mais, buscar o próximo passo.


A virada estratégica: segmentar para cordas friccionadas e ganhar respeito no ecossistema

ALFIO GERES I FUNDADOR HPG MUSICAL

A parte final do relato descreve uma mudança de posicionamento: sair do “leque muito grande” (sopro, teclas, percussão, cordas) e focar onde a equipe tinha mais conexão e especialidade — cordas friccionadas.

Hesley comenta que esse processo foi gradual: estudar, ler, procurar parceiros, viajar para conhecer, abrir canal de importação e fazer escolhas difíceis. O site surge por volta de 2010, numa fase em que a loja já tentava se posicionar na internet (e isso, para o varejo musical, era cedo).

A segmentação e a busca por qualidade aparecem com força quando o Jean (fundador do curso Violino Didático) conta um episódio: ao receber instrumentos para avaliar, ele apontou problemas de ajuste. Em vez de negar, a resposta foi prática: “faz uma lista do que precisa fazer” — e a decisão foi ajustar os instrumentos e elevar o padrão.

Esse tipo de postura é o que constrói respeito com profissionais: reconhecer falha técnica, corrigir processo e elevar régua. Não é discurso. É operação.

E isso se conecta com uma frase que o Alfio repete como legado para os filhos: cliente é para sempre, não para uma vez só.


O fio condutor: atendimento, reputação e melhoria contínua

Mesmo com toda a mudança de tecnologia (harmônio → válvula → transistor → CI → internet), o fio condutor do relato é constante:

  • atender bem como prioridade
  • manter produto disponível sempre que possível
  • construir relações de confiança com clientes e fornecedores
  • tratar fornecedores e parceiros como relacionamento de longo prazo
  • aceitar crítica técnica e transformar em melhoria real

Esse conjunto explica por que a HPG não é apenas “uma loja que vende”: ela se posiciona como um ponto de encontro entre músicos, luthiers, professores e marcas — e isso não acontece por acaso.

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