VIOLA ANDREA AMATI, CREMONA, C. 1564

A Viola de Paulo Abreu e a História que Começa em 1560

Recentemente recebemos na loja uma viola construída pelo luthier brasileiro Paulo Abreu que chamou muita atenção não apenas pela qualidade da construção, mas pela inspiração histórica que ela carrega. O instrumento foi baseado em uma viola criada por Andrea Amati por volta de 1560 — e essa referência acabou despertando uma pesquisa mais profunda sobre o modelo original e sobre o contexto histórico em que ele surgiu.

Essa investigação revelou uma história fascinante, envolvendo realeza europeia, política, religião e a própria evolução dos instrumentos de cordas friccionadas.


Andrea Amati e o nascimento da tradição

Andrea Amati é considerado um dos grandes nomes da luteria histórica. Seus instrumentos não eram apenas ferramentas musicais — muitas vezes eram peças simbólicas, criadas para famílias nobres ou eventos importantes.

A viola que inspirou o modelo estudado atualmente pertence ao National Music Museum da Universidade de Dakota do Sul, nos Estados Unidos. Trata-se de um instrumento com enorme valor histórico, cuja trajetória atravessa séculos e diferentes contextos culturais.

Originalmente, essa viola era uma viola tenor. Em algum momento de sua história, foi reduzida de tamanho para se adequar a padrões modernos de execução. Esse tipo de modificação era comum quando instrumentos antigos precisavam se adaptar às mudanças de repertório e técnica. Porém, essa redução acabou apagando parte do lema gravado nas laterais e no fundo do instrumento, dificultando a identificação de sua origem.


Um casamento real e um instrumento simbólico

Conheça a história da viola de Andrea Amati de 1560

Durante muitos anos, pesquisadores não tinham certeza sobre quem teria encomendado a viola de Andrea Amati. Mas novas descobertas, comparando o instrumento com outra viola sobrevivente em Paris com o mesmo lema e armoriais pintados, indicaram uma possibilidade histórica importante.

A viola provavelmente foi construída para celebrar o casamento entre o rei espanhol Felipe II e Isabel de Valois, filha do rei francês Henrique II.

Esse casamento tinha uma função política clara: unir duas grandes cortes católicas da Europa que estavam em conflito territorial. Na época, alianças matrimoniais eram uma estratégia comum para reduzir tensões entre reinos.

Curiosamente, Felipe II inicialmente propôs casar seu filho com Isabel de Valois, mas acabou se casando ele mesmo com a princesa francesa após ficar viúvo.


O lema gravado na viola

Conheça a história da viola de Andrea Amati de 1560

Um dos elementos mais intrigantes do instrumento de Andrea Amati é o lema pintado nas faixas:

QVO VNICO PROPVGNACVLO STAT STABITQVE RELIGIO

A tradução aproximada é:

“Por este baluarte a religião permanece e permanecerá.”

Essa frase reforça o contexto religioso da época. França e Espanha eram grandes potências católicas e enfrentavam o crescimento do protestantismo luterano na Europa. Instrumentos encomendados para casamentos reais muitas vezes carregavam símbolos políticos e religiosos — e essa viola parece ter sido uma dessas peças.


Detalhes históricos que reforçam a hipótese

Mesmo após as modificações feitas ao longo dos séculos, restam partes do armorial original nas laterais do instrumento. Outro elemento importante é a pintura central no fundo, que pode representar o monograma de Marguerite de Valois, cunhada de Isabel de Valois.

Esses detalhes reforçam a hipótese de que a viola esteve ligada a esse momento histórico específico.

Hoje, o instrumento faz parte da coleção da galeria Rawlins do National Music Museum, onde permanece preservado como exemplo raro da luteria renascentista.


Quando a história inspira a luteria contemporânea

Conheça a história da viola de Andrea Amati de 1560

Instrumentos históricos não são apenas objetos de museu. Eles continuam influenciando luthiers modernos em todo o mundo.

A viola construída por Paulo Abreu que motivou essa pesquisa mostra como modelos clássicos continuam vivos na luteria atual. Ao estudar instrumentos antigos, luthiers conseguem compreender proporções, sonoridade, estética e técnicas que atravessaram séculos.

Isso não significa copiar o passado, mas dialogar com ele — trazendo referências históricas para instrumentos que serão usados hoje por músicos contemporâneos.


🎻 Um ponto importante para quem escolhe seu instrumento

Conheça a história da viola de Andrea Amati de 1560

Na HPG Musical, recebemos frequentemente instrumentos inspirados em modelos históricos, vindos de luthiers brasileiros, oficinas internacionais e linhas selecionadas. O mais importante nesse processo é a escolha criteriosa: analisar madeira, construção, ajuste, tocabilidade e identidade sonora.

Um instrumento bem selecionado faz diferença real na evolução do músico — seja estudante, profissional ou colecionador.


História, tradição e som

A história da viola de Andrea Amati mostra como instrumentos musicais podem ser testemunhas silenciosas de acontecimentos importantes. Eles carregam símbolos políticos, religiosos e culturais — mas continuam sendo, acima de tudo, ferramentas de expressão musical.

Quando um luthier contemporâneo se inspira nesses modelos, ele não está apenas reproduzindo uma forma antiga. Ele está conectando o presente a uma tradição que começou há séculos e continua evoluindo.

E isso é o que torna a luteria uma arte tão especial.

REFERÊNCIAS:

National Music Museum
The University of South Dakota – EUA
http://collections.nmmusd.org/Violas/Amati3370/3370AmatiViola.html

Arquivo ‘Cozio’ de ‘Tarisio’ Fine Instruments and Bows
https://tarisio.com/cozio-archive/property/?ID=40043

Wikipédia – Filipe II de Espanha
https://pt.wikipedia.org/wiki/Filipe_II_de_Espanha

Isabel de Valois, Rainha de Espanha
https://pt.wikipedia.org/wiki/Isabel_de_Valois,_Rainha_de_Espanha

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