PERGUNTE AO LUTHIER: IVAN GUIMARÃES | ATELIER MUSIKANTIGA

PERGUNTE AO LUTHIER: IVAN GUIMARÃES | ATELIER MUSIKANTIGA

Entrevista com Ivan Guimarães (Atelier Musikantiga): violinos antigos, verniz original e luteria no Brasil

Bem-vindo à nossa entrevista exclusiva com Ivan Guimarães, renomado luthier do Atelier Musikantiga.

Ivan é um dos principais nomes na arte de construir e restaurar instrumentos musicais, com vasta experiência na luteria — especialmente em instrumentos de corda, como violinos e violas.

Ao longo desta entrevista, ele compartilha conhecimento direto e prático sobre temas que geram dúvidas recorrentes entre músicos e estudantes: como identificar violinos antigos, por que o verniz original importa tanto, o uso de madeiras nacionais, questões de construção que influenciam o som, além de assuntos que surgiram a partir de perguntas enviadas por seguidores no Instagram.

Caso prefira, você pode assistir a entrevista no nosso vídeo abaixo.

Se você é músico, entusiasta de instrumentos de corda, ou apenas curioso sobre o universo da luteria, esta conversa traz insights valiosos e dicas práticas sobre o que torna cada instrumento único.


“Meu nome é Ivan Guimarães…”

“Meu nome é Ivan Guimarães, sou do Atelier Musikantiga e estou aqui para responder as perguntas. Então, vamos lá.”

A dinâmica da entrevista é direta: perguntas objetivas e respostas com foco no que mais aparece no dia a dia de músicos, compradores e estudantes. A seguir, organizamos os principais tópicos em blocos para facilitar a leitura.


Como saber se o violino é antigo?

Pergunta: Ivan, como saber se o violino é antigo? Quais as características para a identificação?

Ivan começa alertando para um problema comum: muitos instrumentos do começo de 1900 aparecem com etiquetas indicando datas mais antigas, como 1800, e isso torna a definição precisa difícil.

Ele explica que, em instrumentos mais atuais, é possível observar sinais internos, como a oxidação da madeira e do verniz.

E aqui entra um ponto que ele considera central:

“O verniz é uma das coisas mais importantes, por isso que eu sempre digo que, agradando ou não, o verniz nunca deve ser mudado. Quanto mais original ele for, melhor para identificar o instrumento.”


É possível obter bons resultados com madeira nacional?

Pergunta: é possível obter bons resultados em instrumentos como violino e viola de madeira nacional?

A resposta de Ivan é cautelosa e depende da madeira utilizada. Ele cita a grumixava como a melhor opção nacional, afirmando que há comprovação científica e acústica de resultado similar ao maple.

Porém, ele também aponta uma barreira importante: mercado e reconhecimento externo.

Segundo ele, instrumentos com madeiras alternativas — fora do padrão maple — não são reconhecidos (e não aceitos) no mercado europeu.

Ele menciona que, no Brasil, há resistência também, e acrescenta que o clima pode afetar a madeira: empenar, rachar, apodrecer. Do ponto de vista acústico, ele ressalta que a resposta pode ser mais lenta e variar por vários fatores.


O que mais influencia o som dentro do violino?

Pergunta: Qual a coisa mais importante dentro do violino para produzir o som?

Ivan vai direto ao ponto: a espessura.

Ele explica que o instrumento precisa ser muito bem construído, com a medida certa — nem madeira demais, nem de menos. E traz uma observação importante para desfazer um mito comum:

“Tem gente que acha que quanto melhor a madeira, melhor será o resultado sonoro, mas nem sempre é assim.”

Ele reforça essa ideia lembrando que até o próprio Stradivarius fez instrumentos com madeiras simples que tiveram resultados muito bons.


Curadoria e contexto: a HPG Musical e a importância de informação confiável

A HPG Musical, especializada em instrumentos de cordas friccionadas, convive diariamente com dúvidas como as que aparecem nesta entrevista: identificação de instrumentos, impacto real de ajustes, escolhas de materiais e expectativas sobre som e desempenho.

Por isso, além de oferecer instrumentos e acessórios, a HPG valoriza conteúdos educativos que ajudem músicos e estudantes a tomar decisões com mais clareza — especialmente em temas onde há muitos mitos e informações desencontradas.


Por que é difícil achar viola 38?

Pergunta: Por que é tão difícil achar viola de tamanho 38?

Ivan explica que a viola ainda não tem um padrão definitivo de tamanho como acontece com violino e violoncelo.

Ele comenta que a viola foi se transformando ao longo do tempo e que, dependendo do músico e da orquestra, buscava-se um tamanho específico.

Ele também descreve um contraste: na Europa, é comum o uso de instrumentos menores (inclusive para música de câmara), enquanto no Brasil existe uma “mania” de usar instrumentos grandes, como 42, 43 e até 44. Na Europa, segundo ele, aparecem muito violas 38, 38,5 e 40.


“O espelho abaixou”: é isso mesmo?

Pergunta: O que fazer quando o espelho do violino abaixar?

Ivan esclarece que, na maioria dos casos, não é o espelho que abaixa, e sim o braço que cede. Ele explica que pode haver casos em que o espelho descola e baixa, mas normalmente a estrutura interna cede: há um bloco que segura braço, laterais, fundo e tampo, e o problema acontece lá dentro, fazendo o braço abaixar.


Rabicho de kevlar muda mesmo?

Pergunta: Rabicho de kevlar realmente é diferente do comum, aquele que já vem no instrumento?

Ivan responde que depende do instrumento. Ele cita que o kevlar oferece mais resistência e menos flexibilidade de movimento e que, para alguns instrumentos, funciona muito bem, enquanto para outros pode não fazer tanta diferença.

Pergunta: Muda muito o som essa flexibilidade? Isso faz diferença no som?

Aqui ele amplia o raciocínio: não é só o kevlar, é o conjunto — cavalete bem assentado, alma e o instrumento como um todo. Ele afirma que não adianta ter kevlar com cavalete mal posicionado ou alma fora. Se o instrumento não funcionar, qualquer material não resolve.

Ele reforça a ideia que repete como princípio:

“O instrumento tem que ser bem construído. Por mais simples que seja, se ele for bem construído, as chances de funcionar são muito maiores.”


Onde estudar luteria: Tatuí ou escolas italianas?

Pergunta: Qual escola de luteria é melhor, Conservatório de Tatuí ou fazer o curso nas escolas italianas?

Ivan diz que depende das condições e do talento da pessoa. Ele comenta que, para estudar fora (Itália, França, EUA), dominar um pouco a língua ajuda bastante. E lembra que, no Brasil, também existem caminhos: inclusive faculdade de luteria no sul, além de opções que permitem aprender bem por aqui.


Pestana inferior influencia no som?

Pergunta: Gostaria de saber se o tamanho da pestana inferior, se baixa ou alta, influencia no som?

Ivan diz que isso depende um pouco da bombatura e do projeto do instrumento — se é mais flat ou mais bombê, altera um pouco.


O modelo de viola Iizuka ainda faz sentido?

Pergunta: O que você acha do modelo de Viola IIzuka?

Ivan comenta que foi uma moda de época, como outros modelos que surgiram ao longo do tempo, e que hoje está um pouco em desuso.

Ele volta ao ponto de que a viola não tem padrão definitivo e chama o instrumento de “um pouco ingrato”. Ele afirma que ainda é a favor do padrão Stradivarius, por considerar que são violas que funcionam.


Uma pergunta para o futuro da luteria

No encerramento, Ivan puxa uma reflexão sobre a própria área:

“Bom, a pergunta é o seguinte, né? Eu falei um pouco sobre a minha geração, que continua e que se perpetua, e espero que a luteria continue no Brasil e no mundo, apesar do mercado estar mudando bastante. A pergunta é: o que as pessoas veem para o futuro da luteria?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *