
Neste encontro especial, o violinista Thiago recebe Ricardo Barba para uma conversa profunda sobre renúncia, coragem e a capacidade de reinvenção que a música proporciona. Ricardo, que passou uma década como executivo, compartilha como o violino se tornou seu companheiro em um mochilão que durou cinco anos e atravessou fronteiras.
O adeus à estabilidade corporativa
Ricardo Barba viveu dez anos de uma carreira sólida no grupo Ecorodovias, atuando como gestor financeiro e liderando centenas de funcionários. No entanto, o desejo de viver um “ano sabático” falou mais alto. Em uma mudança drástica, ele deixou o cargo de executivo e, no dia seguinte, já estava nas ruas tocando violino por moedas.
“Os 10 anos que eu passei no grupo… eu trabalhei como gestor financeiro, tinha 300 funcionários. Larguei, fiz uma carta me demitindo na sexta-feira e no sábado eu estava na rua tocando”.
Enfrentando o “ferrugem” e o peso das partituras
Ao decidir viajar, Ricardo enfrentou um desafio técnico: ele estava há uma década sem praticar o instrumento. Inicialmente, sua dependência das partituras era tanta que ele carregava mochilas pesadíssimas apenas com papéis, o que dificultava sua locomoção e a interação com o público nas praças.
Quatro meses para renovar um passaporte
A vida de músico de rua trouxe aprendizados sobre economia e resiliência. Um dos momentos mais marcantes foi na Bolívia, onde Ricardo ficou retido devido ao passaporte vencido.
- Para renovar o documento, ele precisava de 120 dólares.
- Devido à baixa valorização da moeda local na época, ele levou quatro meses tocando 12 horas por dia para conseguir o valor.
- Em contraste, ao chegar no Equador (onde a economia é dolarizada), ele conseguia arrecadar a mesma quantia em apenas um dia de trabalho.
A liberdade de tocar sem papel
Um ponto crucial na trajetória de Ricardo foi o encontro com o método de ensino de Thiago. Durante a pandemia, Ricardo tornou-se aluno do curso Improvisando (que evoluiu para a Escola de Improviso).
A técnica ensinada por Thiago permitiu que Ricardo:
- Treinasse o ouvido: Deixando de decorar notas mecanicamente para entender os intervalos musicais.
- Tivesse independência: Conseguindo tirar músicas de ouvido (como as que ouvia no Spotify) e tocá-las em qualquer tom.
- Se livrasse do peso: Abandonando as pastas de partitura para carregar apenas a música na mente e no coração.
Do “Barroco” ao Swing Latino
Ricardo confessa que, antes desse treinamento, seu estilo era “quadrado”, tocando ritmos latinos como se fossem peças barrocas. Com o tempo e o estudo, ele aprendeu a absorver o swing e as camadas da música popular, adaptando o violino para brilhar em ambientes desafiadores, como ruas barulhentas e semáforos, onde a projeção sonora precisa ser máxima.
Dica de Thiago: “A composição e a improvisação são irmãs gêmeas… você precisa aprender os sons primeiro para passar isso para a partitura”.


