
A história da música erudita é frequentemente contada como um monólogo europeu, uma sucessão de gênios austríacos, alemães e italianos. No entanto, nas frestas dessa narrativa oficial, pulsam vozes que foram silenciadas por séculos.
Matheus Bazuca, violinista, vernizador e pesquisador, emergiu como uma das figuras centrais no Brasil para realizar o que chama de “reparação sonora”: o resgate e a performance de obras de compositores negros que a historiografia tradicional negligenciou.
Veja a entrevista completa no vídeo abaixo:
Do “Violino Barco” à Virtuosidade Técnica
A trajetória de Bazuca é um estudo sobre a resiliência brasileira. Nascido no sopé do Morro do Urubu, no Rio de Janeiro, ele viveu o contraste entre a violência urbana e a disciplina musical da Igreja Batista. Sua mudança para a Baixada Santista abriu as portas para projetos sociais, mas o início foi marcado pela escassez.
Seu primeiro instrumento, apelidado de “Barco”, é um símbolo de sua determinação. Encontrado sob um caminhão e reformado de forma precária com parafusos e tinta de guitarra, o instrumento desafiava as leis da acústica.
“Eu acho que meu violino era ‘bom demais’ por ser ruim. Muito do meu pensamento de encaixe de som e posicionamento vem da dificuldade que eu tinha lá atrás para extrair som de um instrumento destruído”, reflete o músico.
Essa fase preparou Bazuca para os palcos de São Paulo, onde ingressou em orquestras jovens de prestígio e enfrentou o choque de realidade de um ambiente onde a cor da pele muitas vezes ditava o nível de acolhimento.
O Racismo Estrutural no Ambiente Orquestral
Bazuca é vocal sobre os desafios enfrentados por músicos negros no universo erudito. Ele relata episódios de “testes de humildade” constantes e a sensação de invisibilidade até o momento em que a performance técnica obriga o reconhecimento. O músico destaca que o racismo nas orquestras se manifesta desde olhares de julgamento em festivais até a resistência de maestros estrangeiros em aceitar solistas negros.
Essa falta de identificação quase o afastou da música profissionalmente, levando-o a trabalhar com audiovisual e lutheria (verniz) durante um período de frustração. Foi na paternidade e no isolamento da pandemia que ele encontrou o estalo para sua nova missão: tornar-se o espelho que ele não teve na juventude.
O Resgate Histórico: O “Mozart Negro” e Além
O núcleo do trabalho atual de Bazuca é a pesquisa de compositores negros que atingiram o ápice da sofisticação técnica no passado, mas cujos nomes não figuram nos programas de concerto padrão.
Chevalier de Saint-George (1745–1799)
Conhecido como o “Mozart Negro” (embora fosse um contemporâneo que influenciou o próprio Mozart), Saint-George foi um prodígio de Guadalupe que conquistou Paris. Foi o maior violinista da França, campeão de esgrima e coronel do primeiro regimento de homens negros da Europa. Sua música, de um classicismo brilhante e tecnicamente exigente, é o carro-chefe das apresentações de Bazuca.
A Escola Brasileira e a Diáspora
A pesquisa de Bazuca também aponta para o fato de que a música clássica no Brasil começou com mãos negras — escravizados que eram treinados na música para servir à elite. O projeto busca conectar essa raiz histórica com o presente, trazendo à tona obras que foram queimadas ou perdidas pelo tempo.
O Projeto “Música por Compositores Negros”
Mais do que concertos, Bazuca estruturou um ecossistema de divulgação que envolve:
- Concertos Didáticos: Apresentações que narram a história do compositor antes da execução da obra, criando proximidade com o público.
- Documentação Audiovisual: Uso de sua formação em cinema para registrar o processo e criar um legado visual para estudantes de música.
- Intercâmbio Pedagógico: Apoio a métodos de iniciação musical baseados exclusivamente em autores negros, visando a construção de identidade desde o primeiro contato da criança com o instrumento.
O Verniz e a Identidade Popular
Além do violino, Matheus é um especialista em verniz de instrumentos de corda, uma técnica refinada que exige paciência e precisão — características que ele transpõe para sua música. Sua atuação no grupo Garagem Erudita também demonstra sua versatilidade, misturando o rigor do conservatório com a energia do Rock e do improviso.
Bazuca defende que a música clássica não precisa ser um “museu de brancos”. Ao tocar o repertório de compositores negros, ele não está apenas executando notas; está reivindicando um espaço de direito e provando que a excelência não tem cor.
O trabalho de Matheus Bazuca é um lembrete de que a cultura é um campo de batalha. Cada vez que ele sobe ao palco para tocar Saint-George, ele está quebrando um silêncio de duzentos anos e garantindo que o próximo jovem negro que pegar um violino saiba que aquele lugar também é sua casa.


