
Quando a equipe da HPG Musical decidiu abrir espaço para uma entrevista mais “de bastidor”, o objetivo era claro: apresentar melhor quem está por trás do atendimento técnico do dia a dia e, ao mesmo tempo, trazer contexto real sobre luteria para quem acompanha o canal e a loja.
O resultado foi uma conversa leve em alguns momentos, profunda em outros, e muito centrada em um nome: Paulo Abreu, luthier que hoje atua de forma recorrente na unidade da HPG no Tatuapé.
A entrevista também marca um momento importante para a HPG Musical: a consolidação de um espaço de luteria dentro da loja, com atendimento mais acessível para quem precisa de ajustes, manutenção e orientação presencial.
O Paulo entra justamente como essa figura de referência: alguém que não só executa o serviço, mas conversa, explica e ajuda o músico a entender o que está acontecendo com o instrumento.
Um luthier “residente” na HPG
A expressão “luthier residente” é um jeito simples de explicar a presença constante do Paulo na rotina técnica da loja.
Não se trata apenas de “ter alguém para consertar os instrumentos”: existe um fluxo contínuo de músicos, estudantes e profissionais que precisam de pequenos ajustes, trocas, diagnósticos rápidos e, às vezes, intervenções maiores.
Na dinâmica da loja, a luteria funciona de forma diferente de um ateliê tradicional.
O atendimento tende a ser mais direto, o público é mais variado (inclusive gente que nunca teve contato com a profissão) e, quando possível, alguns serviços acabam sendo resolvidos no mesmo dia — especialmente quando a pessoa veio de longe e precisa de uma solução prática.
Esse ponto é relevante porque a entrevista deixa claro como a luteria, para muita gente, ainda é um “mundo invisível”: tem cliente que se surpreende ao descobrir que existe um profissional dedicado a conservar, ajustar e restaurar instrumentos.
Ao colocar esse trabalho dentro da loja, a HPG aproxima a técnica do cotidiano do músico.
Por que um luthier português decidiu estudar luteria no Brasil?
Uma das perguntas mais interessantes da entrevista parte de um contraste comum: muitos luthiers brasileiros sonham em estudar na Itália, Alemanha ou em outros polos europeus.
Então por que um luthier português fez o caminho inverso e foi estudar luteria no Brasil?
A resposta do Paulo é construída com camadas bem humanas. Ele veio morar em São Paulo em 1976, na região da Praça da Árvore, e foi ali que conheceu de perto um luthier de guitarras que morava na mesma rua.
A convivência, a oficina, os músicos indo e vindo… isso plantou uma ideia que ficou por anos: “que profissão incrível”.
Mais tarde, já morando em Tatuí, ele redescobre a luteria de outra forma: passando perto do local onde funcionava a escola (na época, em um prédio alugado). Ele comenta com a esposa, repete esse comentário várias vezes, até que ela vira e fala: “por que você não faz o curso?”.
Ele pensa por um tempo, amadurece, e decide entrar — mesmo querendo inicialmente trabalhar com guitarra e violão e encontrando o curso voltado ao universo do violino.
O interessante aqui não é só a escolha do curso, mas a lógica por trás: a luteria entra como um chamado antigo, que volta quando o contexto certo aparece.
Uma história de vida marcada por deslocamentos e sobrevivência
A entrevista ganha profundidade quando o Paulo fala da trajetória pessoal: ele nasceu na Ilha da Madeira (Portugal), emigrou ainda bebê e viveu uma infância em Moçambique, onde a família permaneceu por anos.
Com o processo de independência e o caos político-social do período, a família precisou sair, passando pela condição de refugiados e chegando à África do Sul, com etapa em campo de refugiados e reconstrução de vida em Johannesburg.
Ele conta um episódio particularmente duro: a mãe no hospital em situação grave, o pai tentando levá-la de volta para casa e o carro sendo parado por uma multidão grande, num cenário em que existia risco real de violência.
O ponto que muda tudo é a capacidade do pai de falar o dialeto local, dialogar e acalmar uma situação que poderia terminar de forma trágica. Pouco depois, a família sai às pressas rumo à fronteira e recomeça.
Esse trecho não é “drama gratuito”: ele explica muito sobre a forma como o Paulo fala de profissão, de paciência, de processo e de construção.
A luteria, para ele, não aparece como hobby sofisticado; aparece como escolha de vida depois de muitos deslocamentos e reconstruções.
Do azulejo à luteria: pintura, restauração e o “detalhe que engana os olhos”

Ele conta que conseguiu emprego rapidamente em um ateliê e passou anos nesse universo.
O elo com a luteria fica evidente quando ele descreve o desafio do restauro: o tempo muda cor, brilho, textura.
Se você repara uma parte e deixa outra “nova demais”, a peça fica quebrada visualmente. O trabalho bom é o que iguala, integra e “apaga” a intervenção.
Essa lógica aparece na conversa como um paralelo direto com instrumentos antigos: restaurar é, muitas vezes, um exercício de discrição técnica. Não é “enfeitar”. É fazer com que o reparo exista sem gritar.
E é aí que entra um dos temas mais legais da entrevista: o Paulo já aplicou essa habilidade na ornamentação de instrumentos, incluindo uma pintura inspirada em referências antigas (casos de violinos decorados historicamente para nobres).
Mesmo quando ele não constrói o instrumento inteiro, o olhar do pintor/restaurador influencia o resultado.
Veja nosso acervo dos instrumentos do Paulo, clicando aqui 🙂
Formação em Tatuí e a preferência pelo restauro
>O Paulo situa claramente a formação em luteria: turma de 2016 a 2018, com Vinícius como professor de prática e Vlamir como professor teórico.
Quando perguntam o que ele prefere — construir, ajustar ou restaurar — ele não hesita: restaurar. Mas ele faz uma ressalva importante, que traz credibilidade: ele não se vende como “restaurador pleno” no sentido acadêmico do termo.
Ele conserta instrumentos, faz intervenções, mas reconhece que a restauração profunda exige estudo específico, muitas vezes fora do país, e ele tem interesse em aprofundar isso.
Esse tipo de resposta é valiosa porque mostra uma postura de responsabilidade: saber até onde vai o próprio domínio técnico e onde começa um campo que demanda outra formação.
Verniz uniforme x “antiquizado”: o que muda no olhar do músico
A entrevista entra num tema delicado e muito presente no mercado: instrumentos novos com aparência envelhecida (o “antiquizado”).
O Paulo comenta que prefere um resultado mais uniforme, e a conversa amplia isso com uma percepção de atendimento: o público parece estar mudando, começando a valorizar mais a beleza de um instrumento novo “bem feito”, sem exagero no desgaste artificial.
A lógica é simples: o tempo faz coisas que não dá para simular com total honestidade. Um antiquizado muito pesado pode remeter mais a “instrumento antigo mal cuidado” do que a “instrumento antigo bem preservado”.
E existe uma frase implícita na conversa que vale ouro: ser antigo não é sinônimo de ser bom.
Instrumentos antigos: romantismo, manutenção e instabilidade
Outro trecho forte da entrevista é o contraste entre o encanto pelo instrumento antigo e a realidade prática de ter um.
A comparação com carro antigo aparece naturalmente: tem história, tem charme, mas tem custo e imprevisibilidade.
A conversa aborda algo que a HPG observa na prática: muita gente ama a ideia do instrumento antigo, mas poucas pessoas estão preparadas para a responsabilidade.
Mudança de clima, umidade, maresia, variação de temperatura… tudo isso afeta mais um instrumento antigo, e ele pode “mudar de humor” com facilidade.
Em contrapartida, instrumentos modernos (inclusive de luthier) tendem a ser mais estáveis, o que para estudante e músico que precisa de constância no estudo faz diferença.
A entrevista não demoniza o antigo; só coloca um ponto real: o antigo pode soar incrível, mas cobra um preço — e nem todo mundo quer ou consegue pagar esse preço em manutenção e adaptação.
“Eu vou morrer e o instrumento fica”: construir pensando em durabilidade
Quando o tema vira durabilidade, o Paulo responde com uma visão muito clara: ele tenta seguir a técnica, aplicar o que aprendeu, escolher boas madeiras e construir o melhor que consegue, porque o instrumento é algo que ultrapassa o próprio luthier.
A frase que fica como síntese é simples e poderosa: o instrumento fica. Esse tipo de pensamento muda o jeito de trabalhar: não é só entregar “um produto bonito agora”, é criar algo que siga vivo por décadas.
Bonus: Luthier Responde Paulo Abreu
Um Paulo mais perto: luteria acessível e rotina real na loja
O valor da entrevista é exatamente esse: tirar a luteria do pedestal e colocar no cotidiano. A conversa mostra o Paulo lidando com tudo: de ajuste simples a instrumentos quebrados, de troca de crina a histórias inesperadas (sim, até a história do garfo dentro do instrumento aparece — com humor, mas também com a leitura real de que improvisos acontecem quando falta acesso técnico).
No fim, fica uma mensagem importante: ter um luthier dentro da loja muda o jogo para muita gente. Não é só “consertar”: é orientar, prevenir problema, ajudar o músico a entender o instrumento e tomar decisão melhor.
Obrigado por ter chegado até o final desse artigo. Você já conhece nossa loja, a HPG Musical? Nos visite, vamos ter o prazer de te receber 🙂


